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E A CRIANÇA DESCOBRIU QUE A DOR NA ALMA É MAIS PERENE QUE A DOR NO CORPO.

Lourdes Negreiros
Membro efetivo da Sociedade Psicanalítica de Fortaleza Coordenadora do Nupia
Núcleo de Psicanálise da Infância e Adolescência

As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças
(Manoel de Barros)

De repente a criança de 6 anos sente seu corpo sendo constantemente invadido e persuadido a se entregar. Seu primeiro movimento seria a recusa, a repugnância, a resistência, se tudo isso não fosse inibido por um medo intenso. Entre perplexa e paralisada assiste sua infância ser roubada e se perde entre o susto e o horror.

Poderiam ser estes alguns dos sentimentos vividos pela menina que ocupou a mídia e que na própria cabeça já não sabia mais, qual lugar deveria ocupar?

Infância implica condição de dependência e cuidados, envolve confiança no adulto e na sociedade em que está inserida, solicita sentimentos ternos de amor e compreensão. Infância exige proteção.

Aos 6 anos uma menina descobre que o adulto familiar, supostamente responsável por zelar pela infância, era capaz de tripudiar sob sua fragilidade e violar sua mente de criança. E bruscamente aos 10 anos constata também, que seu corpo agora gera outra criança! Entende do modo mais triste possível que um corpo, teimosamente, é capaz de atropelar a infância e enveredar por destinos obscuros onde seus olhos de criança seriam incapazes de enxergar.

Confusão entre mente e corpo, certo e errado, verdadeiro e falso, dor e vergonha, raiva e medo ocupam sua mente.

Estamos diante de uma ação com consequências físicas e psicossociais graves que afetam a saúde e comprometem o bom desenvolvimento psíquico.

Estamos diante de um abuso sexual de criança. Abuso que culmina numa gestação indevida sem espaço no universo das capacidades infantis. Uma experiência com algumas consequências dificilmente reparáveis vividas no terreno do desenvolvimento da sexualidade.

Essas ditas experiências pela violência que impõem a um aparelho psíquico em estruturação, não encontram condições para serem digeridas. Esse momento precisa ser cuidado por adultos responsáveis que possam ajudar a metabolizar os sentimentos confusos originados a partir do ato intrusivo.

A vida de uma criança virou palco de especulações, sua história foi divulgada pela mídia e sua experiência tem sido alvo das mais variadas críticas. Sua intimidade se transformou em objeto de voyeur.

A vítima vira ré, a dor é transformada em culpa, o medo encontra eco nas incertezas que permearam os dias que antecederam o cumprimento da decisão judicial.

Parece que o abuso não parou no ato do tio. O abuso permanece dia a dia alimentado por especulações e por alguns posicionamentos radicais defendidos por uma parte da sociedade.

Sim, essa criança foi e continua sendo abusada. Ela é tratada como um adulto que deve gerar filhos e responder por seus atos. Ela é culpabilizada e inserida num status de suposta mãe que renega o filho. Não entraremos no mérito do certo ou errado, mas talvez seja imprescindível olhar de perto a desorganização que está sendo imposta ao universo mental dessa criança.

O Estatuto da infância e adolescência enfatiza: Toda criança deve crescer em um ambiente de amor, segurança e compreensão. As crianças devem ser criadas sob o cuidado dos pais, com direito a proteção especial, e a todas as facilidades e oportunidades para se desenvolver plenamente, com liberdade e dignidade. Nenhuma criança deverá será levada a fazer atividades que prejudiquem sua saúde, educação e desenvolvimento. Nenhuma criança deverá sofrer por pouco caso dos responsáveis ou do governo, nem por crueldade e exploração.

Nos últimos dias no meio da nossa já familiar pandemia do Covid, se instaura uma outra pandemia :a que propõe aniquilar a dependência e a imaturidade da infância. E quanto a nós, nesse lugar do adulto destinado a proteger a infância,  o que poderemos fazer?

Nas experiências repetidas de abuso segundo Ferenczi (1933): “as crianças sentem-se física e moralmente sem defesa, sua personalidade é ainda frágil demais para poder protestar, mesmo em pensamento, contra a força e a autoridade esmagadora do adulto que as emudecem, podendo até fazê-las perder a consciência. Mas esse medo, quando atinge seu ponto culminante, obriga-as a submeter-se automaticamente à vontade do agressor, a adivinhar o menor de seus desejos, a obedecer esquecendo-se de si mesmas, e a identificar-se totalmente com o agressor. (p. 117, grifos do autor).

A criança abusada e especialmente a criança abusada por um familiar, vivencia grande dificuldade para fazer o luto pelas etapas perdidas. Sua mente se bloqueia e a sexualidade vê-se colocada no estatuto do feio e culposo. Sua confiança no outro e no mundo são abaladas.

Muitas vezes suas emoções se congelam e ela passa a viver uma espécie de existência vazia, uma não existência. A experiência de dor psíquica inerente ao abuso pode ser recolhida, dando lugar ao ódio por si e pelo outro. E o cenário futuro pode ser cruel para si e para a sociedade. A tarefa de administrar as emoções que transitam entre a dor e a raiva, constitui uma empreitada delicada que consome muita energia e exige muito suporte.

A expectativa de reencontrar em alguém um continente psíquico seguro e de restabelecer o senso de sentido e confiança em si e no outro, dependerá do modo como se sentiu vista e compreendida (ou não compreendida). A possibilidade de ser acolhida por um adulto cuidador que se disponibilize a ajudá-la a pensar e resignificar a violência sofrida, pode ser decisiva nos destinos a serem procurados por suas emoções.

Estamos falando do estatuto daquilo que foi vivido sem ser vivenciado, aquilo que invade parte do psiquismo, mas que não pode ser compreendido. Estamos tratando do que não encontra ressonância no desejo infantil, mas que se instala em seu corpo. Falamos do que não cabe nas experiências sexuais próprias da infância porque estão contaminadas pela mente do adulto.

Como poderíamos construir um espaço de apoio e reparações? Como ajudá-la a revitalizar sua mente de criança?

Parece-nos que será preciso criarmos condições para que a menina possa diferenciar a verdade histórica, da verdade subjetiva, ajudando-a a recuperar as fronteiras entre o que é seu e o que é do outro. Há que se redirecionar a responsabilidade, a culpa e o ato violento para o lugar que lhe pertencem: a mente do abusador. Mente essa possivelmente povoada de prováveis fantasmas e impulsos destrutivos que indicam também a sua própria dor.

No âmbito de mundo interno dessa criança seus conflitos secretos estão emudecidos. A urgência em cuidar do corpo, não dá espaço para pensar. Urge fugir das ameaças, e dos julgamentos. Urge fugir dos medos e da dor.

A notícia passará, mas como terminará sua história pessoal?

Recentemente ao ser preso o abusador atua o seu derradeiro ato abusivo. Afirma que as experiências sexuais eram consensuais, ou seja, coloca o desejo e a responsabilidade pelo ocorrido, na mente da criança. E a menina vê-se agora de frente com uma nova e cruel experiência: ser alvo de julgamentos invertidos onde poderá ser colocada abusivamente no lugar do pervertido.

Ao findar o interesse transitório que essas histórias de vida costumam despertar, como ficará essa criança?

Passados alguns anos será capaz de recuperar a capacidade de confiar e amar, próprias da pulsão de vida?

Terá condições de elaborar sua dor e resignificar sua sexualidade? Em que tipo de adulto se transformará? Para onde se direcionarão os seus afetos?

Estamos diante de muitos questionamentos ainda sem respostas.

A notícia atual da menina de 10 anos é apenas mais uma entre as tantas histórias de abusos sofridas por crianças. O Brasil registrou 17 mil casos de violência sexual contra crianças e adolescentes em 2019 (Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH). Em 73% dos casos, o abuso sexual ocorreu na casa da própria vítima ou do suspeito e foi cometido por pai

ou padrasto em 40% das denúncias. Segundo dados epidemiológicos (Boletim Epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde junho / 2018) as meninas são as principais vítimas, principalmente dos intrafamiliares, e a idade de início dos abusos é precoce, entre os 5 e os 10 anos.

Os dados demonstram que a grande maioria dos casos somente são revelados pelo menos um ano depois do início do abuso sexual. Não se trata apenas de estatística. Estamos falando de inúmeras histórias de infâncias violentadas que muitas vezes se perdem no anonimato, no esquecimento ou na ausência de denúncia. São crianças que estão sendo privadas de cuidados essenciais para assegurar um desenvolvimento físico e psíquico saudáveis. Esse cuidado envolve assistência, apoio, empatia e a disponibilidade de tomada de decisões por parte de adultos responsáveis.

Há momentos que exigem escolhas, como diz Cecília Meireles: ou isto ou aquilo.

Neste momento estamos diante de um delicado impasse: ou escolhe-se pensar cada indivíduo no cerne da sua história e do seu desenvolvimento emocional, ou escolhe-se defender decisões padronizadas ignorando a subjetividade e as capacidades inerentes à condição de determinados momentos do psiquismo.

Mas há que lembrar que as escolhas têm consequências para a vítima e para o entorno que a rodeia. Há que lembrar que a criança desprotegida de hoje, alvo fácil de intrusões, em pouco tempo será o adulto de amanhã, capaz de agir com plena autonomia para atuar seus impulsos.

E nos confrontaremos com a realidade inquestionável implícita nos desdobramentos das decisões inerentes à: OU ISTO OU AQUILO!

NUPIA – I JORNADA CLÍNICA DE 0 A 3 ANOS – CANCELADO

CANCELADO –

A SPFOR através do Núcleo de Psicanálise da Infância e Adolescência (NUPIA), realizará no dia 18 de abril de 2020 a
I Jornada da clínica de 0 a 3 anos.
O evento ocorrerá no auditório da Torre Saúde Complexo São Mateus (Av. Santos Dumont, 5753) das 9 às 18:30.
Na oportunidade contaremos com a participação da psicanalista Alicia Lisondo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP) e também com a presença do Dr. Álvaro Madeiro (pediatra), da Dra. Sílvia Lemos (neurologista) e de Lourdes Negreiros psicanalista da Sociedade Psicanalítica de Fortaleza (SPFOR).
Esse evento pretende promover uma discussão sobre as possibilidades de intervenções do atendimento psicanalítico nessa fase inicial da infância assim como um diálogo interdisciplinar.

🔹Garanta sua vaga com valor especial de 1º lote!
🔹Apenas R$ 90,00
🔹Mais informações: 85 3264.7709 / 98142.4811

Inscrições através de depósito ou transferência para:
Agência: 2301 | C/C: 2843-6 | Banco Sicredi  (748)
Sociedade Psicanalítica de Fortaleza – CNPJ: 05.358.763/0001-22
A confirmação da inscrição se dará através do envio do comprovante de pagamento juntamente com o nome do participante para psicanalisefortaleza@gmail.com

 

 

 

 

Psicanálise e Arte em Sessão | O retrato de Dorian Gray

Psicanálise e Arte em Sessão

Local: Livraria Cultura – Shopping RioMar
Data: 29 de novembro de 2019 – 19h
Hora: 19h00

O retrato de Dorian Gray
Oscar Wilde

Comentários

Fernanda Coutinho | Professora de Teoria da Literatura da UFC
Walmy Silveira | Psicanalista da SPFOR

Entrada Franca
Contato: 3264 7709

SINOPSE

 

No romance um pintor faz um retrato de um belo jovem, Dorian Gray que se apaixona pela pintura e a esconde num porão onde passa a contemplá-la frequentemente. Ele observa que enquanto o retrato segue deteriorando a pessoa do retratado se conserva bela e sempre jovem. Uma versão do mito de Narciso pela qual idealizadamente a juventude e a beleza de cada um jamais pereceriam, num acordo com a ilusão de onipotência e autossuficiência através da qual o indivíduo careceria da interação, contribuições e amor do outro. O estudo do romance pode ensejar reflexões sobre essa importante característica humana o narcisismo, que através dos tempos sobretudo em nossa sociedade atual se manifesta em diferentes facetas.

Psicanálise e Arte em Sessão – Filme Relatos Selvagens

Psicanálise e Arte em Sessão

Local: Livraria Cultura Shopping Varanda Mall
Data: 28 de junho de 2019
Hora: 19h00

Relatos Selvagens
Filme de Damián Szifron

Comentários
Régis Frota | Cineasta
Lourdes Negreiros | Psicanalista SPFOR

Entrada Franca
Contato: 3264 7709

Sinopse

O filme do argentino Damián Szifrón é composto, de seis  episódios independentes, mas que se entrelaçam  tematicamente, costurando uma série de reflexões sobre a agressividade e apontando a  tênue separação entre o humano e o selvagem. Uma obra sobre o ódio  em situações extremas, o longa investiga com acidez   e  humor negro a atual sociedade que construímos e alguns de seus mais profundos vícios e angústias. Vingança, frustração,violência, mágoa, traição e sede de poder, permeiam o funcionamento dos personagens denunciando   que em situações limite a agressividade pose ser atuada de forma selvagem.
Os relatos selvagens conduzidos por Szifrón fazem com que o espectador seja convidado a transitar entre o humor e a violência dramática e nos  provoca a  pensar sobre o limite frágil que separa a civilização da  barbárie.
Afinal ate onde somos capazes de ir quando confrontados com situações quer nos incitam a perder o controle?

Psicanálise e Arte em Sessão – A infância de um chefe

Psicanálise e Arte em Sessão

Local: Livraria Cultura Shopping Varanda Mall
Data: 26 de abril de 2019
Hora: 19h00

A infância de um chefe
Cap.do livro O Muro de Jean-Paul Sartre

Comentários

Atilio Bergamini | Doutor em Literatura Brasileira pela UFRGS, professor de Literatura do Curso de Letras e do Programa de pós-graduação em Letras da Universidade Federal do Ceará

Valton de Miranda Leitão | psicanalista didata SPFOR

Entrada Franca
Contato: 3264 7709

 

Programa Escutar e Pensar

Programa Escutar e Pensar

Tema: Violência contra a Criança
Apresentação: Maria Livia Marchon

Data: 22  de março de 2019
Horário: 14h às 15h
Rádio Universitária FM 107.9
www.radiouniversitariafm.com.br

CONVIDADOS

ALMIR DE CASTRO NEVES FILHO
Professor de Pediatria e Medicina do Adolescente
Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará

FLÁVIA MELO BRASIL
Psicóloga e Psicanalista da SPFOR

Participe do Programa
Telefone: 3366.7474

Programa Escutar e Pensar – A importância dos livros

Programa Escutar e Pensar

1º Programa ao vivo de 2019

Tema: A importância dos livros
Apresentação: Maria Livia Marchon

Data: 01 de fevereiro de 2019
Horário: 14h às 15h
Rádio Universitária FM 107.9
www.radiouniversitariafm.com.br

CONVIDADOS

WALMY SIVEIRA PEREIRA
Psicanalista da SPFOR

MAICON ARAÚJO DOS SANTOS
Professor de Literatura da UECE

Participe do Programa
Telefone: 3366.7474
escutarepensar@gmail.com

Psicanálise e Arte em Sessão

Psicanálise e Arte em Sessão

Local: Livraria Cultura Shopping Varanda Mall
Data: 23 de novembro
Hora: 19h00

Num diálogo com a filosofia

DISCURSO SOBRE A SERVIDÃO VOLUNTÁRIA
ÉTIENNE DE LA BOÉTIE

Comentado por:

Carlo Tursi | Teólogo (UVA) professor de filosofia, teologia, psicologia e Ciências das religiões no Uni7, Universidade sem
fronteiras e Spazio Nova Idade

Barbosa Coutinho | Psicanalista da SPFOR
Maria José de Andrade Souza | Psicanalista da SPFOR
Walmy Silveira | Psicanalista da SPFOR

 

Entrada Franca
Contato: 3264 7709

 

O brilhante texto de Étienne de la Boétie, filósofo século XVI coloca em discussão um dos bens mais preciosos que possuímos: a liberdade. O quanto estamos dispostos a usufruí-la e defendê-la ou entregá-la aos tiranos. Sob a ótica da psicanálise de Freud a questão é complexa pois o homem é governado também por forças inconscientes, sendo em muitos casos nosso maior tirano o superego. Além dos ângulos filosófico e psicanalítico, o texto poderia ser visto ainda de um ângulo sociológico, histórico e político. Venha a nosso evento para nos enriquecer com sua opinião, será muito bem-vindo.

 

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