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A Função Paterna da Interpletação

Resumo: As funções paterna e materna se complementam sem que possa afirmar a anterioridade de uma função sobre a outra. O autor tenta esboçar nos movimentos transferenciais e contra transferenciais de um material clínico o que fixa a pulsão e o que a faz pendular entre a presença e a ausência permitindo que o estranho se represente.

A função paterna da interpretação1.
Miguel Calmon du Pin e Almeida2

“ E as palavras serão servas de estranha majestade. É tudo tão estranho”.

Carlos Drummond de Andrade .

Uma palavra sobre Carlos Drummond de Andrade, gigante da poesia brasileira e latino-americana. Este poema, A Luiz Maurício, foi dedicado a seu neto recém nascido, a quem ele apresenta o mundo. O poema me ocorreu para poder falar de José, um homem de 50 anos que me endereça a criança em sofrimento que há nele. Sua análise fez emergir em mim movimentos transfero-contratransferenciais de tipo especulares: um comportamento em espelho para lhe ajudar a viver no mundo e existir no mundo de suas relações com os outros, Seja pela investigação acerca do que faz das palavras servas, seja pelos sentidos de sua estranha majestade, que o verso de Carlos Drummond de Andrade nos acompanhe em nossa conversa. As reflexões que o verso permite nos aproximarão da clínica psicanalítica e da função paterna da interpretação. De onde as palavras retiram o vigor de sua carne? Onde se fazem carne? De que modo se descolam da sua carne, ganham vida própria e sentidos que ultrapassam sua 1Trabalho apresentado no atelier “A função paterna da interpretação”, no 73ème Congrès des Psychanalystes de Langue Française, realizado em Paris, em maio de 2013. 2 Psicanalista, Membro Efetivo Didata da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ).
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materialidade? Nos sentimentos que as animam secretamente por dentro? Nas referências às outras experiências de onde recolhem seus significados? Na riqueza da escuta daqueles a quem elas se endereçam? Quais os senhores de quem se fazem servas na sua estranha majestade? Não nos surpreende mais que a clínica psicanalítica se apoie na especificidade de uma escuta que se empenha em se abrir aos muitos sentidos. Se muitos, se tantos, se em excesso, ao siderar entre tantos, nada fixa e ficamos impedidos de escutar; se apenas um, nos crispa e cristaliza, paralisa o jogo, a brincadeira, e se torna insuportável ouvi-lo. Uma escuta que se define pelo constante abrir e fechar para os sentidos. Do mesmo modo, função materna e paterna se combinam. Christian Delourmel cita J.L. Donnet em seu relatório:“o pai sempre esteve presente e, se ele vem em ‘segundo lugar’, é sempre numa temporalidade après-coup”. Pela mesma razão, eu estou de acordo com François Villa quando ele afirma em seu relatório que:“Defenderei a ideia de que, no começo, há necessariamente pai e mãe. Os dois primeiros processos, o da identificação e o do investimento libidinal de objeto, cumprem-se numa contemporaneidade que impossibilita a sua distinção cronológica”. Se a função materna tem por finalidade fixar a pulsão em sua excessiva possibilidade, a função paterna tem por objetivo fixar o pêndulo de modo a permitir e estabelecer o movimento de báscula, onde o abrir e fechar se alternam e torna possível abrigar em seu interior o estranho. Já se foi o tempo em que a pretensão de uma verdade secreta escondida nas dobras das palavras, ou ainda, por debaixo delas, jazia à espera de seu decifrador. Os sentidos da interpretação são construções produzidas no interior da relação psicanalítica pela obediência da regra fundamental. O estranho que inclui e interroga, que abriga, exclui e deixa escapar, que compreende e reconduz a pergunta para outros lugares. Em toda sua dimensão paradoxal, este estranhoencarna a função paterna. Por muito tempo, restringimos nossa concepção de interpretar àquela de propor um nível de desvelamento simbólico do material manifesto, fosse sonho, sintoma ou qualquer outra formação de compromisso. Foram as exigências dos casos-limite, para usar a concepção de André Green, que nos confrontaram com outras dimensões da interpretação. Como interpretar um
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símbolo que não chegou a se constituir com tal? Quais as operações implicadas neste processo de constituição? Quais as precondições para uma interpretação? A partir de então, a função de interceptar sofre uma violenta torção e nos obriga a considerar questões sensações, de ritmos, principalmente ritmos, como sendo fundamentais para construir um solo comum onde um mesmo acontecimento possa ser compartido. A todas estas operações de construção de um solo comum passamos a considerar como pertencendo à função materna da interpretação. Há quatro anos apresentei um material clínico para ser discutido no III Colóquio Franco-Brasileiro. Gostaria de reproduzir uma vinheta do material e acrescentar uma outra do fim do ano passado para ilustrar o ateliê.

1 ª sessão: uma sessão do início de sua análise: José fala por mímica. Talvez ainda desconheça as palavras ou quem sabe desconheça a possibilidade de ser compreendido. A experiência de perigo iminente está presente em todo seu corpo. Fala como se precisasse gritar para ser ouvido. Será que não percebe que estou a menos de um metro? Gemidos, onomatopeias e outros grunhidos são necessários para completar precariamente a função de comunicar. As mãos retesadas voam querendo dizer algo, como se me advertissem para o que eu não vi. “Aí, uuuuhhhhh, eu pá! Pensava: caralho.” De fato, ele estava diante de um grande perigo. Os olhos sempre arregalados.Sentado, José se contorcia, ora escorregando ora se debruçando e pendurando o corpo nos braços da poltrona. Nada falei. Nada entendi. Nem um pequeno relato, mesmo que minimamente ordenado, para me contar naquela primeira entrevista quem ele era. Mas algo de essencial ele me comunicava daquele jeito. Quanto a mim, me invadiu um sentimento de que eu nada teria a temer. Um desapego de mim e da atribuição de sentido, uma coragem que não posso dizer que marquem frequentemente o começo das análises. Algo solicitava de mim aquele desapego e eu respondia que sim.

Assim ficamos por duas semanas. Ao terminar a sessão, lhe perguntava quando queria voltar e eu aceitava o que me propunha.

Um dia José chegou e permaneceu me olhando um longo período. Eu nada disse. De repente percebi que respirávamos no mesmo ritmo. Ambos com as mãos sobre
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o peito e no mesmo compasso. Ele alternava seu olhar entre meu rosto e minha barriga. Queira que eu notasse que respirávamos no mesmo tempo. Fiz o mesmo e alternei meu olhar entre seu rosto e sua barriga. Ele compreendeu. Ele sabia. Nada dissemos. No final da sessão, ele disse: “legal. Você notou que estávamos respirando juntos!”

No material clínico, o que chamou minha atenção foi a abertura exigida na relação com o paciente para a construção de uma boa experiência em comum, um solo comum onde os acontecimentos podiam ser referidos às mais simples orientações: dentro/fora; em cima/embaixo; morto/vivo. A prosódia, aquilo que fazemos quando brincamos com as crianças, marcando, como em uma partitura, onde a fase deva ser dada, estabelecendo diferenças entre os sentimentos, momentos onde imaginar o paciente assim como se imaginar no lugar do paciente criam as bases para as identificações. Todas estas operações constituem o que concebemos como a “função materna da interpretação”, onde fixar a pulsão, estabelecer seus campos, suas redes, seus ritmos definem o objetivo desejado. Após o primeiro ano de análise onde a tônica era a descrita nesta sessão inaugural, isto é, momentos fugazes onde pequenos acontecimentos, lampejos de subjetivação, foram ligando o “de dentro” com o “de fora” quase sem nenhum compromisso com ordem e sentido – ou dito de outra forma, onde a ordem e o sentido eram o encantamento de José em descobrir a possibilidade do encontro do “de dentro” com o “de fora” – então, uma experiência vem nos fornecer material novo de modo a permitir e abrir um longo tempo de perlaboração. José sonha. Desde então quatro anos se passaram.

Ao final do ano passado, antes da interrupção para as festas de fim de ano, José me conta um sonho. O sonho se dividia em duas partes: na primeira, ele se via diante de um ferro longo e pesado, impossível de ser carregado nas costas sozinho. Ele não suportaria o peso. Aparece um outro homem com quem Jose divide o peso da carga. Eles conseguem colocá-lo nas costas, levam-no para o alto de uma duna e deixam-no rolar para o fundo da duna onde era seu lugar. Lá ele deveria ficar. José volta-se para outra direção e começa a correr. Ele está de galochas. José voa, leve e alegre. Ele me diz em associação ao sonho que deveria estar se sentindo mais leve sem aquele peso nas costas.
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Na segunda parte do sonho, José está diante de um tatu-bola, um bicho que quando ameaçado se fecha em si mesmo, deixando apenas uma carapaça voltada para fora. José pode acompanhar os movimentos de se esconder do tatu-bola por buracos na terra que se ligavam entre si, assim como à rede de esgoto, por meio de um monitor. Pelo monitor de tv, ele podia acompanhar o tatu-bola. Via-o sair na cidade pela rede de esgoto. José associa este sonho ao que se passava com ele quando se via só, quando se vê só. O que chama sua atenção é a presença do monitor para acompanhar o tau-bola. José percebe que ele vira tatu-bola no momento em que isolado e só não se sente capaz de identificar e conter os sentimentos que descobre dentro de si. Enreda-se em si mesmo, se fecha, sem chances diante do enfrentamento do mundo, sem chances de mudança e transformação. As diferenças entre as duas vinhetas ilustram momentos bem distintos do processo de José: em um primeiro momento, há um empenho em encontrar experiências que possam significar nossas presenças, tornando-as possíveis; no segundo momento, no sonho, trata-se de uma experiência já ancorada simbolicamente, onde José se vê diante dos conflitos de não estar mais só, ou melhor, da necessidade e do desejo de estar acompanhado. Aparece um homem em seu sonho, um estranho, que o inibe em sua insistência especular, unidirecional, incestuosa, impossível, e o conduz para lugares mais complexos, onde a primazia não é dual mas intermediada pela presença de um estranho, a partir de quem consegue se ver em sua impotência para carregar o que excede as suas possibilidades e forças; em sua fuga impossível e solitária pelos buracos da cidade, mau e feio. Estou plenamente de acordo com René Roussillon, citado no relatório de Christian Delourmel, quando afirma que:

É desta matriz (simbolizante) que emerge a função paterna em seu duplo vértice: de um lado, o vértice terceirizante, que aparece nessas sequências estreitamente relacionado com o processo de metaforização e com a constituição de um campo transicional; e de outro lado, o vértice inibidor, resultante da interiorização de uma oposição à descarga pulsional incestuosa.

A tais funções me parece corresponder a função paterna da interpretação. Nomeando o processo através do qual o estranho pode ser acolhido como tal e como o mais próprio do sujeito, sem jamais se deixar inteiramente domesticar, se constituindo
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como o único capaz de interpelar a consciência decisivamente, alteritariamente, autenticamente.
La función paterna de la interpretación.
Resumen: Las funciones paterna y materna se complementan sin que se pueda afirmar a anterioridad de una función sobre la otra. El autor intenta esbozar en los movimientos transferenciales e contratransferenciales de un material clínico lo que fija a pulsión y lo que la hace pendular entre la presencia y la ausencia permitiendo que lo extraño se represente. Palabras clave: Lo paterno, lo materno y lo extraño.

The paternal function of interpretation
Abstract: The paternal and maternal functions complement each other without that can assert the anticipations of a function on the other. The author tries to sketch in the transference and countertransference movements of a clinical material the laying down the drive and what makes commuting between presence and absence by allowing the stranger poses. Keywords: The paternal, the maternal and the stranger

Referências Delourmel, C.(2013) De la fonction du père au principle paternel.Revue Française de Psychanalyse, 77, 2013/5 Drummond de Andrade, C.(1954) Fazendeiro do ar In Poesias Completas Villa, F. (2013) Le père: um héritage archaique? Revue Française de Psychanalyse, 77, 2013/5

Recebido: 30/01/2014

Miguel Calmon du Pin e Almeida Rua Carlos Góis, 375/310 e 311 Leblon Rio de Janeiro, RJ CEP22440-040 Tel/Fax: 2511-1744 mcalmon.trp@terra.com.br

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