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“O veredicto”, de Franz Kafka

Ou o estranho caso do pai que manda o filho se afogar e o filho se afoga mesmo.

O autor faz um breve resumo do célebre conto de Kafka “O veredicto” em que, num clima emocional aparentemente harmônico, o pai sentencia o filho à morte e este obedece, declarando, ao se lançar no rio, o seu amor aos pais. O autor analisa o conto sob a perspectiva do pai e do filho numa tentativa de conjugar as compreensões, entendendo a morte de Georg como uma vitória sobre o pai. Agora sim, ele estaria gozando um prazer sexual interminável, eterno, e deixando para o pai toda a culpa e o sofrimento pela falta que sentirá dele. Desta maneira, Georg se transformará no filho amado pelo pai que irá se arrepender eternamente de haver dado o veredicto de morte ao filho, agora e só agora, finalmente, amado. Uma loucura além da loucura shakespeariana, uma loucura kafkiana!

O estranho caso do pai que manda o filho se afogar e o filho se afoga mesmo.
“Couldn’t read it for its perversity. The human mind isn’t complicated enough”
Albert Einstein, after returning a Kafka novel loaned to him by Thomas Mann.
Einstein devolveu um livro de Kafka, que Thomas Mann lhe havia emprestado, dizendo: “Não pude
lê-lo por sua perversidade. A mente humana não é tão complicada assim.”
Mas, em Auschwitz, os nazistas não teriam superado Kafka no conto “Na colônia penal”? Por outro
lado, será que só em Kafka é que o pai manda o filho se matar ou temos tal projeto em mente, quando
somos a favor da corrida armamentista em regiões de razoável paz como na maior parte da América do
Sul?
Paulo Marchon

O complexo de Édipo ofereceu à criança duas possibilidades de satisfação, uma ativa e outra
passiva. Ela poderia colocar-se no lugar de seu pai, à maneira masculina, e ter relações com a mãe,
como tinha o pai, caso em que teria sentido o último como um estorvo; ou poderia querer assumir o
lugar de sua mãe e ser amado pelo pai, caso em que a mãe se tornaria supérflua.
Freud – 1924, p.176.

Resumo

O autor faz um breve resumo do célebre conto de Kafka “O veredicto” em que, num clima emocional
aparentemente harmônico, o pai sentencia o filho à morte e este obedece, declarando, ao se lançar no rio, o seu amor aos pais. O autor analisa o conto sob a perspectiva do pai e do filho numa tentativa de conjugar as compreensões, entendendo a morte de Georg como uma vitória sobre o pai. Agora sim, ele estaria gozando um prazer sexual interminável, eterno, e deixando para o pai toda a culpa e o sofrimento pela falta que sentirá dele. Desta maneira, Georg se transformará no filho amado pelo pai que irá se arrepender eternamente de haver dado o veredicto de morte ao filho, agora e só agora, finalmente, amado. Uma loucura além da loucura shakespeariana, uma loucura kafkiana! Ah! Se Georg houvesse se analisado…
“O Veredicto” foi o primeiro conto de Franz Kafka, considerado pelos críticos e até por ele mesmo,
como tendo valor literário. O conto é impressionante, pois em um ambiente de relativa tranquilidade,
acontece algo terrível: um pai, aparentemente entrando em um processo de senilidade, talvez já com
características demenciais, vive, na mesma casa, com um filho razoavelmente cuidadoso. De repente, o pai critica o desejo de o filho se casar, diz que, por isso, o filho traiu aos pais e condena-o a se afogar no rio. O filho, até então plenamente normal, corre e se lança da ponte no rio dizendo, ao se jogar, que sempre amou os pais. Tudo isto é incompreensível se formos tentar entender dentro de um viés comum. Na perspectiva da psicanálise tais questões podem se tornar compreensíveis.

O conto

Georg vive com seu pai em Praga, cidade natal e onde também vive o autor do conto, Franz Kafka.
Em uma época de sua vida, Kafka disse que, de uma rua onde ele morava, em Praga, podia-se ir
diretamente ao rio e ele achava que era uma “rua-trampolim-para-os-candidatos-ao-suicídio” (Lemaire,
p.98). Mas, voltemos ao conto. Nele, a mãe do personagem, Georg havia falecido havia três anos e o pai
estava alquebrado. Georg havia noivado e estava em dúvida se enviava uma carta para um amigo na
Rússia, informando seu noivado. Este amigo não teve sucesso na Rússia e não conseguia desenvolver
condições para se casar. Georg tem medo de despertar a inveja do amigo e, por isso, não comenta nada
sobre seu próprio sucesso comercial em Praga. Como Georg não comenta o próprio sucesso, seu amigo
imagina que Georg esteja fracassando economicamente em Praga o que o leva a convidá-lo a ir para a
Rússia, onde oferece condições que, pela situação financeira atual de Georg, se tornam ofertas “ridículas”.
Ao final, depois de muita luta interior, Georg resolve escrever a carta contando o noivado ao amigo e fala
com o pai sobre estas suas dúvidas quanto a escrever ao amigo contando sobre seu noivado. Há meses não ia ao quarto do pai, na casa em que conviviam, embora, no trabalho, sempre se vissem e almoçassem
juntos. Após a morte da mãe, Georg tomou a frente dos negócios e multiplicou os negócios por cinco,
ficando o pai numa posição apagada na atividade comercial.
Comentários e um pouco da análise de Georg. Há inúmeras semelhanças entre este magnífico conto, fatos da vida de Kafka e a famosa Carta ao pai, escrita por ele. Interessa-nos apenas salientar a cena em que Georg está sendo ridicularizado pelo pai, como um tolo, porque, segundo o mesmo, bastou uma mulher levantar a saia para ele se deixar seduzir.
Sete anos depois de escrever e publicar “O veredicto” , quando Franz Kafka, aos 36 anos, expôs ao
pai seu desejo de noivar com Julie, em seu terceiro noivado, seu genitor, Herman Kafka, comentou algo
semelhante, que Kafka transcreveu na Carta ao pai: “Provavelmente ela usou uma blusa escolhida com
cuidado, assunto do qual as judias de Praga entendem muito.” Tal comentário provocou grande revolta em Kafka.
A Carta ao Pai foi escrita pouco depois de desfeito o noivado com Julie, ainda em 1919, enquanto
que o conto “O veredicto” foi escrito em 1912. Um dos biógrafos de Kafka, Louis Begley, diz não haver
nenhuma pista para esclarecer este ponto — esta semelhança de reação –, entre o pai de Kafka e o pai de
Georg no conto, nem nas inumeráveis cartas, nem no Diário, de Kafka.
Mas, diríamos nós, não existiria a hipótese de Herman, o pai de Kafka, haver lido o conto “O veredicto”, do filho, e ter realmente falado, ou melhor, repetido o que Kafka imaginou e escreveu em seu
conto, sete anos antes? Se Kafka escreveu antes de o pai falar, podemos admitir que fosse de Kafka a
origem deste conceito depreciativo sobre a mulher judia, mormente se ela, a noiva, tem o mesmo nome da sua mãe, Julie. Por que não se imaginar que o pai de Franz, debaixo daquela grosseria e desinteresse
habitual em relação a seu filho como escritor, pudesse desenvolver alguma curiosidade, mesmo que
escondida e ter lido, com interesse, o conto? Kafka ganhou o prêmio literário Fontane, que incluia 800
coroas em dinheiro e teve obras publicadas em vida. Há referências a que o pai tinha os olhos cheios de
satisfação em relação ao filho, quando alguém fazia algum comentário elogioso ao mesmo. Franz
aniquilava com argumentos depreciativos quem viesse com quaisquer informações boas sobre o pai. O pai tinha que ser mau de qualquer maneira e não podia ter nada de bom e de elogioso ao filho.
Não é fundamental o pai haver ou não repetido o que o filho escreveu na Carta e em “O veredicto”,
pois nosso interesse é no próprio conto, na história do mesmo. Georg, o personagem, tem dificuldades em mostrar públicamente que deseja se casar. Agarra-se na fantasia de que o amigo na Rússia teria uma
extraordinária inveja se soubesse do seu próximo casamento. Ora, um medo da inveja alheia, paralisante
desta forma, provavelmente seja devido à própria e lancinante inveja associada a outros conflitos. Quando a noiva ouve Georg expressando suas dúvidas em comunicar o seu noivado ao amigo, ela diz: “Se tens amigos assim, Georg, não deverias nem ter noivado” e não escondeu seu sofrimento. “Na verdade isto me magoa”, diz ela entre os beijos de Georg. A insinuação de homossexualidade de seu noivo parece flagrante, pois envolve uma ideia de uma relação amorosa com o amigo tão intensa que o impede de comunicar seu próprio noivado. Ora, se não pode comunicar o noivado, também não se pode casar com a moça por causa do amigo.
Podem-se imaginar as dificuldades de um homem que fica noivo e tem que comunicar a uma namorada de outro lugar que resolveu se casar com a “outra”. Este é o dilema de Georg, só que, com um homem! Depois de ouvir as palavras da noiva, entendidas por ele, inconscientemente, como uma percepção do seu forte apego homossexual, Georg decide-se a escrever a carta e contar ao pai.
“É assim que eu sou e assim que ele [o amigo] deve me aceitar. Não posso me recortar de
dentro de mim um homem que talvez fosse mais adequado à amizade com ele do que eu mesmo
sou”.
Podemos entender que um homem mais adequado ao amigo seria aquele que não tivesse mulher, ou
seja, Georg sem uma noiva para atrapalhar. Mas Georg não pode mais “recortar de dentro de si uma parte dele mais adequada” ao namoro com o amigo na Rússia. Mas o extraordinário é que Georg vai falar é justamente com o pai. É como se fosse contar ao pai, pela primeira vez, que vai se casar. É com o pai que está sendo iniciado o primeiro ato da tragédia passional, que vai culminar em morte. Não se trata de um amor simples entre pai e filho, nem de uma paixão um pouco tensa entre os dois, mas sim algo terrível, enredo de tragédia grega, pois termina em sentença de morte e obediência cega ao veredicto proferido pelo enciumado pai. As paixões sexuais, o ciúme, a inveja, os conflitos de desejo de poder se entrechocam e levam a fins trágicos.
O pai se mostra, no início do encontro, extremamente bom e compreensivo para com o filho.
Podemos ver neste momento a fusão da imagem do amigo com o pai a quem ele vai, ao final, realmente
falar que vai se casar. Georg é o filho ideal, diante de um pai que se revela como um idoso começando um processo aparentemente demencial, o que provoca mais sofrimento e culpa em Georg, para logo depois o pai surgir aparentemente bem de saúde física, mas estranhamente modificado mentalmente.
As palavras da noiva – “se tens amigos assim, nem deverias ter noivado” — foram fatais no desenlace.
Isto implicava Georg se desfazer dos laços homossexuais e se unir à noiva. Não fosse a problemática de
Georg, o conto continuaria com a descrição de um pai em decadência física e mental, o filho ouvindo tudo o que o pai falou, mas a repercussão do que o pai fizesse ou dissesse seria apenas motivo de o filho se condoer mais ainda do pai. Poderíamos imaginar que o conto de Kafka teria uma continuidade assim:
“Coitado do meu pai, está tão perturbado, chega a ficar dizendo estas tolices, mandando que eu me afogue, ele precisa é de médico, carinho, nós sempre nos amamos. Preciso cuidar mais dele, levá-lo para minha futura casa, não deixá-lo tão só”. Mas Kafka é kafkiano e não um simplório marchoniano.
A decepção de Georg com o ressentimento paterno, o fato de não ter mais no pai o amigo que o
ajudasse a se desfazer dos laços homossexuais que ainda o prendiam pesaram muito. Neste conjunto os
três, pai, filho e o amigo na Rússia estão unidos num enlace homossexual destrutivo. O pai mostra a Georg a intensa ligação dele, pai, com o “amigo na Rússia”, sua preferência pelo mesmo, o desprezo, a falta de amor para com Georg, sentencia Georg à morte e este obedece declarando, ao se lançar no rio, seu amor aos pais.
Para que a sentença do pai tivesse tal poder é porque Georg criou em sua mente uma imagem terrível
dele, dando-lhe direito absoluto de vida e de morte. Por certo haveria fatores próprios de Georg, mas
também outros que foram sendo desenvolvidos na sua criação. Sabemos que, enquanto a mãe era viva, ela dava força ao pai e Georg tinha pouco poder na firma que os pais criaram. A firma, no caso, é um termo que exprime também os ideais de família, as ideias da firma pai- mãe, mas também as fantasias de relação sexual dos pais, e ainda simploriamente a empresa comercial fundada pelo pai. A firma era,
fundamentalmente, uma relação em que o pai unido à mãe se sentia “… o mais forte. Se estivesse sozinho
talvez tivesse de desistir, mas a mãe me deu toda sua força, me uni de modo esplêndido ao teu amigo, e tua clientela eu a trago aqui, no meu bolso!” (p. 124).
Green (p. 272-3) estuda pacientes que se submetem a “um desejo de autodesaparecimento do ego”
relacionado a terem vivido abandono de uma mãe inacessível, ausente, uma mãe morta despertando uma “perpétua demanda de consolo nunca satisfatória.” Green continua:
Num aspecto extremo, o processo de autodesaparecimento se põe em movimento, representando ao mesmo tempo a última escapada frente a uma situação contraditória e traumática… como se o Ego se deixasse arrastar irresistivelmente na esteira do objeto [seguindo a mãe morta] … antes de desaparecer completamente (275).
O ciume e a inveja de Georg, o fato de sentir-se enganado pelo genitor arrasaram-no. Estava sendo
lançada em sua cara a traição daqueles a quem amava a ponto de nem querer se casar para não desfazer a “firma” dos pais. O genitor descreve os motivos iniciais para empreender a reviravolta que ele colocou em marcha — o desprezo e a desconsideração do filho que se adonou do seu posto e tornou-se o chefe,
ocupando o lugar do pai — e tenta se vingar de Georg: Conheço bem aquele teu amigo. Ele seria um filho segundo os desejos de meu coração. Por isso mesmo é que o enganaste durante todos esses anos. Por que, senão por isso? Pensas que eu não chorei por causa dele? É por causa disso que te trancas no escritório, que ninguém deve te incomodar, o chefe está ocupado… Para que possas escrever tuas cartinhas falsas à Rússia.

Gonçalves Dias, o nosso grande poeta, diria em I Juca Pirama: “Já meu filho não és!”
Diante deste conjunto de terríveis palavras, Georg “olhou para a imagem apavorante de seu pai. O
amigo de São Petersburgo, a quem o pai de repente conhecia tão bem, apoderou-se dele como nunca antes havia feito. Viu-o perdido na Rússia distante. Viu-o na porta da firma vazia e saqueada. Ainda há pouco estava ainda parado entre as ruínas das prateleiras, entre as mercadorias destroçadas, entre as lâmpadas a gás caindo. Porque ele teve de partir para tão longe!” (122).
Para tentar se livrar do terror frente a seu mundo desabado pelas terríveis palavras do pai, Georg
procura, por identificação projetiva, descarregar tudo o que estava tragicamente vivendo como se toda
aquela desgraça estivesse ocorrendo com o amigo distante e não consigo mesmo, deixando, no final, um
lamento lancinante: Por que você [meu amado] teve de partir para a Rússia, para tão longe? Por que você foi amar meu pai, me abandonando e me traindo desta forma? O amado amigo distante para quem não podia dizer que estava noivo tornou-se o preferido do pai. Georg está dupla e fatalmente traído…
Alguma análise do pai de Georg e um outro tanto do filho O pai não tem nome, ou seja, ele é o pai! Podemos concluir que o pai vivia uma condição que ele julgava maravilhosa enquanto a esposa era viva. Haviam construído um lar e uma firma em que tinham um filho que trabalhava na empresa obedecendo fielmente os ditames paternos, no que era apoiado inteiramente pela “nossa cara mãe” (116). Com a morte dela, tudo se inverteu: o filho assumiu a chefia da firma, multiplicou o negócio por cinco, não ouviu mais o pai e, ainda mais, resolveu se casar. Diante desta  virada o pai enlouqueceu. Taxativamente disse para o filho: “só porque ela levantou a saia assim e assim, tu te grudaste a ela” (122). Mas, para o pai, invejoso e enciumado, ver o noivado do filho deste modo ridículo é porque ele imaginava que, enquanto a mãe vivia e ele dominava a família e a firma, o que ele pensava era estar “tapando” sexualmente o filho “frutinha” e que “nossa mãezinha querida” (117) pactuava com isso.
Nestas circunstâncias, Georg desenvolver-se e ter uma posição de comando e uma vida afetiva e sexual é
trair ao pai e à mãe. Para o pai a única condição admissível era a de senhor absoluto da mãe e do filho. Mas com a morte da esposa tudo se acabou. O pai não sentiu apenas a inversão feita por Georg, pois, com seu ciúme exacerbado em relação à noiva mostraria o sentimento de que o filho estivesse a se apossar, através do seu casamento, da “nossa cara mãe”. Por outro lado, o filho, para se suicidar por ordem do pai, imaginaria que estaria com o seu casamento a dominar sexualmente a mãe e que precisava ser punido com a morte por causa disto. Em outros termos, Georg vivia em sua mente a noiva como sendo a imagem da própria mãe.
Mas voltemos à história: O pai está em franca decadência, enquanto o filho está em plena ascensão.
Em largas pinceladas, Kafka traça a vida de Georg que está ora com a noiva, ora com os amigos, ora no
escritório, alegrando-se com os lucros da firma, mas abandonando o pai, sem reconhecimento ao que
recebeu da firma pai-mãe. O genitor se sente só, incapaz de lidar com a perda da esposa, acrescido pelo
fato de que o filho vai se casar e vai deixá-lo de vez. Ele pode afirmar enfaticamente que Georg, seu filho,
não tem mais amigo, pois não tem mais no pai o amigo e nem, tampouco, é mais o amigo do pai. O genitor diz ainda que ele, o pai abandonado pelo filho, sabe de tudo. A primeira queixa do genitor é a de que, na firma, depois que a “mãe morreu aconteceram certas coisas bastante feias” (116) e pede para Georg “não decepcioná-lo” e pergunta reiteradamente: “Tens de fato este amigo em São Petersburgo?” (117)
Parece que Georg sentiu a estocada do pai e tenta ajeitar as coisas afirmando sua amizade total ao
genitor acima de “mil amigos” e que fecharia a firma se ela viesse a ameaçar a saúde do pai. Oferece ao pai o quarto da frente, em que ele próprio estava, ou seja, se propõe a ser o filho submisso, ajoelha-se diante do pai e ouve dele, baixinho: “Georg, tu não tens nenhum amigo em São Petersburgo” (118). Georg tenta desesperadamente mostrar que o pai conheceu e até gostou do amigo na Rússia, mas o que ele está querendo provar seria a antiga amizade entre ele, Georg, e o genitor. Tira as calças de malha do pai e percebe as roupas sujas. Ou seja, vê as sujeiras que estaria fazendo com o pai, tomando-lhe o lugar na firma e desprezando-o. Não seria à toa que o pai se revolte contra o filho e afirme que Georg está sentado em cima do pai, evacuando nele e para ele. A psicanálise nada mais faz, às vezes, do que exprimir em outras palavras o que a sabedoria popular comunicaria de um modo emocional muito vivo e com palavras mais fortes.
Georg agora pensa em reacertar as coisas, levar seu pai para o seu futuro lar de casado e cuidar dele
melhor. Mas parece que já é tarde. Georg leva o pai à cama, ele se cobre e pergunta ao filho
reiteradamente:
Estou bem tapado?” Ingenuamente Georg responde que sim, mas o pai joga “a coberta
para o alto” (120), fica “parado em pé sobre a cama” e diz: “Tu querias me tapar, eu sei, minha
frutinha, mas tapado eu ainda não estou (121)”.
Por mais que Georg tenha desprezado o pai, não se justifica racionalmente a reação paterna quando
este vê no casamento do filho como se este estivesse a sentar-se sobre ele, evacuando em cima: “Agora
mesmo achavas que conseguiste dominar o pai, dominar de tal maneira que poderias sentar-te com teu
traseiro sobre ele sem que ele pudesse se mover, ao decidir, senhor meu filho, que te casarias!” (121)
O tradutor Marcelo Backes considera as palavras “tapado” e “frutinha” como chulas no original alemão.
Tapar seria também enterrar, daí podermos entender como o pai, pelo fato de o filho casar-se, após a série de desconsiderações praticadas por Georg, sente-se “tapado” pelo filho, submetido a uma relação
homossexual pelo mesmo e enterrado vivo pelo desprezo. Nestas circunstâncias, pelo fato de Georg se
casar, o traseiro do filho teria este poder de imobilizar, levar o pai a não poder se mexer, ou seja, à
impotência, e, em último termo, castrar o pai. O filho estaria, na fantasia do pai, a “botar no traseiro” do
genitor. O pai estaria sentindo no amor do filho pela noiva a expressão do seu abandono definitivo pelo
mesmo, mas também tomando posse da mãe de tal sorte que o pai estaria “dominado” e “sem poder se
mexer”. O trio constituído pelo pai, mãe e filho com a morte da mãe se desfez e, com o casamento do filho, ameaça desabar. O pai se sente inteiramente traído sexualmente pelo filho que o abandona com a mãe-morta e fica com ela – a noiva — viva. Mas o pai, magicamente, vai ao túmulo da mãe, desenterra-a,
arranca-a do Hades infernal qual um anti-Orfeu sem lira que não deixa Eurídice olhar para trás, retoma-a nos braços e, como num filme de terror, adquire os poderes mortíferos infernais e vingativos da mãe
rediviva e assume o comando novamente com todos os poderes do Demônio.
O pai achincalha a noiva do filho, encena o conflito levantando “seu próprio roupão” (122) e mostra
“sua cicatriz dos anos de guerra na coxa”, em plena exibição das batalhas sexuais com a mãe, e diz para o
filho:
tu te grudaste a ela para poderes te satisfazer nela sem seres perturbado, profanaste as
lembranças de nossa mãe, traíste teu amigo e enfiaste teu pai na cama, afim de que ele não
pudesse mais se mexer. Mas, ele pode ou não pode se mexer, hein? E levantou-se com toda a
liberdade (122).
Mostra exuberantemente que pode se mexer, que o filho não o dominou nem o tornou impotente. O amigo a quem o pai se refere quando diz “traíste teu amigo” é o próprio pai traído pela desconsideração e
casamento do filho. O fato de o pai ver o casamento do filho como uma traição aos pais, que profana “as
lembranças de nossa querida mãe”, envolve a fantasia de que antes da morte dela, havia uma união sexual dos três, com um filho “frutinha” e uma esposa que lhe “dava toda sua força” (124). Para o pai, Georg com o casamento e o “faturamento que havia aumentado cinco vezes” (110) teria tentado modificar a relação dos três que o genitor havia estabelecido desde o nascimento de Georg: o pai desfrutando uma relação sexual contínua com a mãe e ambos sentados no traseiro do filho frutinha.
Mas a história ainda não terminou: o pai acusa Georg de não haver sido honrado, de haver roubado tudo
do pai, pois tudo o que Georg tem, até a vida, veio do genitor: “Acreditas, por acaso, que eu não te amei,
eu, do qual vieste?” Neste momento, como uma chispa, passa pela cabeça de Georg o desejo de fulminar o pai. Mas o pai está com a mãe dentro dele. Varre a noiva do filho, a intrusa, e também varre Georg, pois tudo de Georg agora virou lixo na mente do genitor. O pai sabe perfeitamente que Georg nunca foi nem é inocente. Em outros termos, diz que o filho é o diabo em pessoa e que Georg sabe disto. Diante de o filho ser o diabo em pessoa, o pai tem o direito de utilizar todos os poderes Demoníacos que conquistou com a Mãe arrancada dos Infernos subterrâneos e dá seu Veredicto final: a Morte por afogamento!
Poderíamos traduzir em palavras nossas as fantasias terríveis do pai:
“Tu sabes que há pouco quase me fulminaste. Eu consegui afastar teus golpes mortais, Satã sabe como. Há pouco tu me tiraste a roupa para ver se as feridas que me fizeste eram mortais. Não eram felizmente. Tu sabes que, com o poder de tuas máquinas internas e infernais de destruição e morte, escapei por pouco, embora ferido por tuas armas letais que deixaram suas marcas fétidas em meu corpo fragilizado. Minha vida foi uma eterna luta para me defender de teus ataques. Salvei-me há pouco de mais uma de tuas constantes tentativas de castração a mim, quando tentaste imobilizar-me à morte. Tua mãe me salvou novamente. Ela se uniu a mim agora e, assim, arranco a mãe de teus braços e a retomo para mim. Georg, sabes que tens um Georg diabólico, que desde criança está tentando me matar para tomar a mãe de mim, mas ela é minha, eu estou com ela e você está condenado por mim, seu pai, a se afogar no rio. Corra e se lance na morte para sempre. Teu pai te condena! És o Diabo! Não me castrarás e não roubarás tua mãe de mim”.
Georg tinha certeza de que o seu pai tinha plena razão, que o pai sabia e estava com toda a Verdade e
que a Noiva era sua Mãe, daí ele não poder se casar com ela. Afogou-se no rio porque considerava tudo
acima como verdades absolutas e porque amava realmente seus pais e não iria fazer o que Édipo fez: matar o pai e casar-se com a mãe.
Georg não sabia que atrás da imagem interior de pai que construíra teria desenvolvido também uma
imagem terrorífica, diabólica, do pai que ele confundira como sendo do próprio e autêntico pai. Marcelo
Backes (127), em relação à famosa frase final de “O veredicto”, — ‘Justo naquele instante havia sobre a
ponte um fluxo interminável.’ nos diz que Max Brod comentou haver Kafka dito que ele pensava, naquele momento, “numa forte ejaculação”. Acrescenta o tradutor: “Kafka usa a palavra Verkehr, que pode significar, em primeiro lugar ‘fluxo’ e, em segundo, ‘relação (sexual)’. Optando por ‘fluxo’ temos ambos os sentidos”, conclui Backes (127).
Então podemos entender o suicídio de Georg sendo vivido como uma vitória sobre o pai. Agora sim,
ele estaria gozando um prazer sexual interminável, eterno e deixando para o pai toda a culpa e o sofrimento pela falta que sentirá dele. Desta maneira, Georg se transformará no filho amado pelo pai que irá se arrepender eternamente de haver dado o veredicto de morte ao filho, agora e só agora, finalmente, amado.
Uma loucura além da loucura Shakespeariana, uma loucura Kafkiana! Ah! Se Georg houvesse se
analisado…

Referências bibliográficas

Freud S (1924) The dissolution of the Oedipus complex, p. 176. SE 19
Green A (2008) Orientações para uma psicanálise contemporânea. Rio: Imago
Kafka F (2010) A metamorfose seguido de O veredicto. Tradução comentada de Marcelo Backes. Porto
Alegre: L&PM.
_____ F (2004) Carta ao pai. Tradução comentada de Marcelo Backes. Porto Alegre: L&PM.
Marchon P (2013) “A carta ao pai, de Franz Kafka, analisada por Paulo Marchon”.
Rio: Editora Bookmakers

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